(Placar 1980)
Quando Dicá tinha 11 anos, todos os domingos, o campo de areião do bairro Santa Odila, em Campinas, estava sempre cercado de torcedores. “Tudo para me ver jogar” – dizia orgulhoso enquanto saia do pequeno vestiário de madeira, ajeitando a enorme camisa alvi-azul dos infantis do Santa Odila Futebol Clube para dentro do calção azul.
Seu Oscar, pai de Dica e técnico do time, chamou-o de lado – “Meu filho, o negócio é o seguinte: Você não sabe, mas tem muita gente aqui no time reclamado que você anda driblando demais. E eu mesmo estou convencido disso. Então, hoje, vou te botar na reserva. É a única maneira que eu conheço de você perder esse vício”. Dicá abaixou a cabeça e se afastou devagar. Seu Oscar sentiu que o golpe tinha sido duro demais. Afinal, Dicá era de fato a grande atração do Santa Odila. A cada domingo aparecia mais gente no bairro, atraída pelas conversas de que ali estava se revelando um Pelezinho branco.
Mesmo nos momentos mais cruciais de sua vida, Dicá sempre se mostrava tranqüilo e sem reclamar de nada. Ele jogou seis meses emprestados ao Santos de Pelé e na hora de vender o passe, mesmo sabendo que a Ponte Preta ganharia muito dinheiro, ele preferiu ficar em Campinas. Jogou na Portuguesa, onde o técnico Oto Glória procurou humilhá-lo e Dicá ficava em silêncio, certo de que poderia se impor tão somente com o seu futebol. No decorrer dos anos 70, vários jogadores inferiores a ele foram convocados para a seleção brasileira, mas jamais se ouviu de sua boca uma reclamação. E nem ouvirá. Em 1978, o jornalista Brasil de Oliveira, do Jornal da Tarde, fez uma enquête – Qual o jogador mais querido em Campinas? Não foi Oscar, Zenon, Carlos ou Careca. O vencedor foi Dicá. E não apenas porque ele era educado, simpático, boa gente. É que o povo conhece o futebol. O treinador Zé Duarte sempre diz – “Campinas deve estátuas a duas pessoas: Amaral e Dicá”.
Nas duas decisões dos campeonatos paulistas de 1977 e 1979, entre Corinthians e Ponte Preta, Dicá ao vivo ou pela TV para o Brasil inteiro, mostrou todo seu grande futebol. Foi um meia armador que por mais de dez anos bateu bola como poucos, colocando quase sempre seus companheiros de ataque na cara do gol, esfriando ou esquentando o ritmo das partidas com sabedoria. Apesar disso, Dicá sempre foi um rapaz retraído, muito bicho do mato. É verdade que sua cidade, seu bairro tiveram uma força sentimental muito grande sobre Dicá que tinha medo de perder o carinho e a segurança de seus amigos e familiar.
Se na Ponte Preta viveu seu grande momento, na Portuguesa de Desportos, com o técnico Oto Glória, viveu um verdadeiro inferno sem nunca reclamar. Em 1972 a Lusa era um time em ascensão, mas ele caiu na desgraça de Oto Glória, que preferia a combatividade de Basílio ao jogo cerebral de Dicá.
O técnico sentia prazer em ser cruel com o craque campineiro. Quando escalava, costumava dizer nas preleções – “Você vai entrar. Mas fique sabendo: se jogar mal, sai logo, logo”. Num jogo contra o Remo, o time perdendo, deixou-o no banco até o último minuto. Aí, com um gesto de desdém, mandou-o entrar – “Vá lá, ô. Pode ser que apareça uma falta para você bater”. Em Rio Preto, certa vez, os alto-falantes anunciaram uma estranha substituição – “Sai Dicá e entra Serelepe”. Em outra ocasião, contra o Marília, Oto Glória o escalou de ponta direita e o tirou aos dez minutos de jogo. E Dicá nunca reclamou – “Pra que, se ele preferia o Basílio ? Autoridade é autoridade”. De qualquer forma aquilo era um inferno. O clube não era nada daquilo que ele sonhara para sua carreira. E na imensidão de São Paulo, conseguiu fazer amizade apenas com o porteiro do edifício onde morava. Por isso, ficou feliz da vida quando os dirigentes da Ponte Preta o procuraram para saber se ele queria voltar para Campinas. Assinou contrato com o clube alvi negro no dia em que a Ponte completava seu 76º aniversário. Foi como se as festividades do clube fossem para comemorar seu retorno. A partir daí, Dicá se estabilizou financeiramente e viveu os melhores momentos de sua carreira.
Fonte : www.museudosesportes.com.br

